As Crônicas de Babel ou
Seu peito, outrora orgulhoso e cintilante de emoção, torna-se ofegante a cada hora que passa desde o nascer do novo dia. Com a reunião das três tribos, sabe que enfim, apenas o tempo é o único obstáculo que a separa de seu honroso destino. Em sua tenda, fortemente vigiada pelos sacerdotes guerreiros de Nuth, pôde refletir durante toda a noite anterior sobre todos os procedimentos que terá de realizar no alto do dia, quando a conjunção dos sóis se posicionar bem ao centro do círculo de pedras. Suas vestes rituais, de seda brilhante, tecidas cuidadosamente desde seu nascimento, completam quinze primaveras hoje, marcando o entendimento de Demetrifh de que a hora fatídica em que se encontrará face a face com Zetricon será o ápice dos acontecimentos do Ritual. Abstraída de pensamentos diversos, a menina toma mais um gole da mistura preparada pelos Profetas do Caos com o objetivo de desanuviar sua mente, tentando se concentrar no que os anos de treinamento junto às Guardadoras da Antiga Sabedoria a ensinaram. De olhos fechados, consegue enxergar lampejos de sua infância, encontrando o momento onde pela primeira vez conseguiu dominar o Fogo Vermelho. Na Terra das Amendoeiras, foi predita como a escolhida desde sua natividade. As lembranças da caverna onde sua mãe Motraih, a guardou por dez meses, trouxeram a Paz que procurava para iniciar o seu transe. Com cinco anos, aprendeu a dominar o contato com as feras draconianas e desde os oito anos já entendia as vozes da natureza, conversando com o vento e a chuva. Prodígio nas Artes Mágicas, educada aos pés da Sacerdotisa Claekuht, cedo demonstrou tais dotes, confirmando o que o Oráculo de Mithmard havia predito sobre si. “Da mulher que profere belas palavras surgirá a semente que subjugará o Dragão-Cego” haviam dito os velhos de barbas vermelhas. Ora, Motraih, grande poetiza, derrotou-o vinte e dois anos antes, numa batalha de palavras, onde através de seus comoventes dizeres orientou Zetricon a encravar suas unhas de mármore no ventre do dragão. Sua aparência física, agradável ao gosto dos Imortais, transparece o frescor do desabrochar de quinze primaveras recém completadas. Sua pele, branca como a seda que a adorna, se mistura ao corar da face intermitentemente enrubescida pelo sangue vivo que circula em suas veias.Tatuagens foram feitas em suas costas com palavras de proteção, escritas em vermelho e na Velha Língua. Suas mãos estão ornamentadas com anéis de ouro em cada um de seus dedos.Os pés estão desnudos, para entrar em íntimo contato com a Terra, detentora de todos os Saberes do Mundo. É de pequena estatura, como todos os que são da Terra das Amendoeiras, e tem o rosto curto e pequeno, com traços delicados. Os olhos são escuros e redondos, refletindo a miudeza de seu físico. Seus cabelos, longos por nunca conhecer lâmina, são ruivos, assim como toda a rara penugem que recobre sua pele. Em seus pulsos e tornozelos nota-se marca de cortes provenientes de rituais passados, onde se fez necessário o sangue de suas veias como co-participante. Entretanto, Demetrifh sabe que o dia de hoje exigirá de si mais que apenas seu sangue . Já absorta e sozinha em sua tenda e com os primeiros sintomas produzidos pela ingestão da mistura preparada a ela, repete então a palavra inominável mentalmente, buscando a força interior adequada, pois sabe que se falhar, fatalmente será consumida pela Destruição e o espírito do Dragão-Cego se libertará de seu ciclo de morte, trazendo assim do Outro Mundo a temida Desolação. Perto da chegada da metade do tempo da parte clara do dia, Demetrifh ouve o barulho de tambores, seguido de uma música tocada por flautas, harpas, saltérios e kitarras, alternantes aos gritos da multidão reunida no local. Seu coração acelera, pois sabe que enfim sua hora está próxima. Repentinamente, todo o barulho cessa, e ela começa a ouvir um murmurar que gradativamente começa a se tornar um canto, lânguido e repetitivo. Na entrada de sua tenda, surge a o vulto de uma mulher pequena. Reconhece então Claekuht e rapidamente se atira nos braços da velha mulher, dizendo:
-Ah, minha mãe! Como agora tenho medo! Desde que nasci fui preparada para esse dia, e nunca o havia conhecido. Mas ao ouvir o barulho dos tambores e da música, repentinamente me sobreveio um frio mortificante brotando em meu peito, e eu agora não sei mais onde guardei minha coragem!



