terça-feira, 13 de maio de 2008

As Crônicas de Babel ou

Do dia em que Demetrifh se uniu a Zetricon...

Seu peito, outrora orgulhoso e cintilante de emoção, torna-se ofegante a cada hora que passa desde o nascer do novo dia. Com a reunião das três tribos, sabe que enfim, apenas o tempo é o único obstáculo que a separa de seu honroso destino. Em sua tenda, fortemente vigiada pelos sacerdotes guerreiros de Nuth, pôde refletir durante toda a noite anterior sobre todos os procedimentos que terá de realizar no alto do dia, quando a conjunção dos sóis se posicionar bem ao centro do círculo de pedras. Suas vestes rituais, de seda brilhante, tecidas cuidadosamente desde seu nascimento, completam quinze primaveras hoje, marcando o entendimento de Demetrifh de que a hora fatídica em que se encontrará face a face com Zetricon será o ápice dos acontecimentos do Ritual. Abstraída de pensamentos diversos, a menina toma mais um gole da mistura preparada pelos Profetas do Caos com o objetivo de desanuviar sua mente, tentando se concentrar no que os anos de treinamento junto às Guardadoras da Antiga Sabedoria a ensinaram. De olhos fechados, consegue enxergar lampejos de sua infância, encontrando o momento onde pela primeira vez conseguiu dominar o Fogo Vermelho. Na Terra das Amendoeiras, foi predita como a escolhida desde sua natividade. As lembranças da caverna onde sua mãe Motraih, a guardou por dez meses, trouxeram a Paz que procurava para iniciar o seu transe. Com cinco anos, aprendeu a dominar o contato com as feras draconianas e desde os oito anos já entendia as vozes da natureza, conversando com o vento e a chuva. Prodígio nas Artes Mágicas, educada aos pés da Sacerdotisa Claekuht, cedo demonstrou tais dotes, confirmando o que o Oráculo de Mithmard havia predito sobre si. “Da mulher que profere belas palavras surgirá a semente que subjugará o Dragão-Cego” haviam dito os velhos de barbas vermelhas. Ora, Motraih, grande poetiza, derrotou-o vinte e dois anos antes, numa batalha de palavras, onde através de seus comoventes dizeres orientou Zetricon a encravar suas unhas de mármore no ventre do dragão. Sua aparência física, agradável ao gosto dos Imortais, transparece o frescor do desabrochar de quinze primaveras recém completadas. Sua pele, branca como a seda que a adorna, se mistura ao corar da face intermitentemente enrubescida pelo sangue vivo que circula em suas veias.Tatuagens foram feitas em suas costas com palavras de proteção, escritas em vermelho e na Velha Língua. Suas mãos estão ornamentadas com anéis de ouro em cada um de seus dedos.Os pés estão desnudos, para entrar em íntimo contato com a Terra, detentora de todos os Saberes do Mundo. É de pequena estatura, como todos os que são da Terra das Amendoeiras, e tem o rosto curto e pequeno, com traços delicados. Os olhos são escuros e redondos, refletindo a miudeza de seu físico. Seus cabelos, longos por nunca conhecer lâmina, são ruivos, assim como toda a rara penugem que recobre sua pele. Em seus pulsos e tornozelos nota-se marca de cortes provenientes de rituais passados, onde se fez necessário o sangue de suas veias como co-participante. Entretanto, Demetrifh sabe que o dia de hoje exigirá de si mais que apenas seu sangue . Já absorta e sozinha em sua tenda e com os primeiros sintomas produzidos pela ingestão da mistura preparada a ela, repete então a palavra inominável mentalmente, buscando a força interior adequada, pois sabe que se falhar, fatalmente será consumida pela Destruição e o espírito do Dragão-Cego se libertará de seu ciclo de morte, trazendo assim do Outro Mundo a temida Desolação. Perto da chegada da metade do tempo da parte clara do dia, Demetrifh ouve o barulho de tambores, seguido de uma música tocada por flautas, harpas, saltérios e kitarras, alternantes aos gritos da multidão reunida no local. Seu coração acelera, pois sabe que enfim sua hora está próxima. Repentinamente, todo o barulho cessa, e ela começa a ouvir um murmurar que gradativamente começa a se tornar um canto, lânguido e repetitivo. Na entrada de sua tenda, surge a o vulto de uma mulher pequena. Reconhece então Claekuht e rapidamente se atira nos braços da velha mulher, dizendo:

-Ah, minha mãe! Como agora tenho medo! Desde que nasci fui preparada para esse dia, e nunca o havia conhecido. Mas ao ouvir o barulho dos tambores e da música, repentinamente me sobreveio um frio mortificante brotando em meu peito, e eu agora não sei mais onde guardei minha coragem!

Claekuth a recebe calmamente em seus braços. É uma mulher avançada em anos. Seus cabelos também vermelhos, são longos e acomodam um diadema prateado que se assenta sobre a testa já enrugada pelas agruras da vida. Suas vestes, diferentemente das de Demetrifh, são vermelhas, denotando sua superioridade hierárquica. Acalentando-a delicadamente na rosada nuca responde:

-Esquece o que sentistes, pequena. Tal sentimento não pertence aos de nossa estirpe. Não tenha medo de falhar. Tu o sabes. Isso não será possível. Te ensinei rigorosamente desde teu nascimento. Já sabes o que deves fazer, e o que não sabes, Zetricon fará por ti. Lembra-te apenas que deves proferir a Palavra da maneira correta e o resto, deixai com os Imortais.

Demetrifh, ainda sente seu coração bater aceleradamente. Aperta os braços de sua tutora com força, crispando os dedos contra o tecido vermelho que recobre o corpo de Claekuht. Naquele momento, parece que é mais fácil fraquejar que se levantar e caminhar solenemente para o meio do circulo de pedras, disposto a apenas alguns metros dali. Mas, sabedora que não pode mais retroceder, e ouvindo o cântico se avolumar no interior da tenda, de súbito é tomada por uma coragem que a obriga a erguer a cabeça e sair do colo da Sacerdotisa. Levantando, se dirige ao cálice que ainda contém a mistura preparada pelos Profetas do Caos, e toma-o até sorvê-lo completamente. Sabe que precisará dele para ouvir profundamente a Voz do Deus. Então, diz:

-Mãe, subitamente sinto-me pronta. Será esse o sinal de que devo me dirigir já ao local? Ou devo esperar mais um pouco? Não vejo mais o medo e sim o senso do dever, imperioso e urgente. O que me dizes, minha mãe?

Ao ver a atitude repentina de Demetrifh, Claekuht a olha com ternura. Lembra dos anos que passaram na Terra das Amendoeiras. Dos ensinamentos debaixo do grande baobá, próximo ao lago das trutas, onde passaram tardes decifrando os sons dos insetos e peixes. Da impetuosidade com que a outrora pequena Demetrifh a questionava sobre os múltiplos s aspectos das Artes Mágicas. E de sua sede e curiosidade pelo correto uso dos Poderes. Naquele pequeno instante, antes da consumação do seu sacrifício, Claekuht a amou mais que em todos os quinze anos que a amara. Por fim, disse:

-Sim, pequena altiva. O teu interior te convoca e denuncia que este é o momento propício. Todos já te esperam. A Terra, a Natureza, as Tribos, Kronm, Zetricon e o Dragão te aguardam. Vamos sem demora, que a Terra precisa sarar.

“As duas mulheres trocam um rápido abraço. Demetrifh então fita o rosto de Claekuht, e liberta um sorriso de seus lábios denotando confiança em suas palavras. De mãos dadas, seguem para fora da tenda, ascendendo ao caminho que as levará ao Círculo de Pedras...”

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008



Hipocrisia

Deixa eu te falar
Que eu sei que tu fala pelas minhas costas
E nem ao menos se importa
Ou mesmo sente pesar
E apesar d'eu parecer estar absorto
Não creia que estou "morto"
Sei sim, e cuidado a partir de agora, querida,
Pra não se estrepar.

Se um dia fez parecer que era meu amigo
Descobri hoje que não fazes nada a não ser olhar para teu próprio umbigo
E sem que saibas disso,
Escrevi isso aqui, e vim te mostrar
Que, como dizem em algum lugar:
"Nada está debaixo do sol, que não possa se desdobrar!"


Então, cobra criada, desde já,
Segue teu rumo desdito, pela tua hipócrita estrada
E me deixa comigo, pra que eu faça novos amigos
Que não me venham com facas e apunhaladas
Nem palavras estáticas e sem sentido.

Por fim, a vocês todos, que compartilham do vício
De se divertir ao causar todo e qualquer malefício
Um último recado: Se te faço mal, tenho apenas um derradeiro petardo,
Sorry, queridos e queridas, mas com todo o meu (des) respeito, vão se danar.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Vale a pena ler de novo XI





"Se a infelicidade persegue a virtude e a prosperidade acompanha o crime, estes elementos se tornam uma única coisa na visão da natureza... não é muito melhor se juntar á companhia dos malvados que prosperam do que ser incluído entre os virtuosos que se encotram na ruína...?"


Perturbadora. Caótica. Imoral. São apenas algumas palavras que poderiam definir a personalidade de Donatien Alphonse Fraçois, o Marquês Divino, para uns... ou Marquês de Sade para outros. Alcova de uma era, Donatien, ao mesmo tempo um bem nascido oficial da cavalaria francesa, trilhou seu caminho por uma larga estrada de lascívia e perversão, percorrendo-a incansavelmente sempre em constante e monstruoso furor de libido. Suas sucessivas prisões em consequência de seus hábitos não ortodoxos, provocam apenas mais impulso à sua incessante obsessão pelo amoral. Entediado com o agora comportado gênero "romance fantástico" de seu tempo ( entusiasta do classicismo alcançado por Lewis em "O frade" ... não gostava dos livros de Radcliffe... mas também, um final como o do "Os Mistérios de Udolpho" ninguém merece!), cidadão Sade escreveria que "para aqueles que travaram contato com os inúmeros males causados ao homem pela crueldade, o romance estava se tornando mais difícil de ser escrito e ao mesmo tempo monótono de ser lido." Ora, Donatien é contemporâneo à Revolução. Em um momento turbulento como este, onde o chocante se mescla ao comum, o véu que encobre o absurdo frente á realidade acaba se tornando roto e esquálido, e naturalmente encontramos o outrora inverossímel travestido de plausível em uma alternativa completamente modulada, adversa ao que outrora fora improvável. Consciente do momento em que vive, Sade levará tal gênero literário a um nível inominável de insandecimento para sua época (tardiamente conhecido, como sadismo). Seu radicalismo ( teria dito, já próximo da morte: ..."imperioso, colérico, irascível, extremo em tudo, com uma imaginação dissoluta nunca vista antes, ateísta ao ponto de fanatismo, você me tem em uma casca de nozes...mate-me novamente ou me liberte como eu sou, pois eu não mudarei"...) o levaria a retratar os fios condutores de tal profano caráter em seus romaces... histórias estas concebidas durante os muitos anos de prisão vividos por ele. O livro "Os infortúnios da Virtude" revela sua visão de mundo. A protagonista Justine, a despeito de toda sua bondade, é massacrada por todo sortilégio de maldade sexual e moral sem nunca ser recompensada por Deus. parece que para Alphonse, os bondosos têm garantias apenas no Paraíso, e os maldosos...bom, apenas esses têm o direito inalienável de decidir sua sorte!). Encontramos as mesmas idéias expressas nos "Diálogos entre um Padre e um Moribundo". Sade como escritor, se atém sempre aos mesmos temas de maneira atormentadora e cíclica, quase masturbatória (!?), seja para desviar-se do tédio produzido pela estadia em várias celas por onde passou pelo menos 30 anos de sua vida, seja apenas para dar vazão à sua tórrida atração pelo monstruoso. Suas sátiras obscenas, graças aos seus ingredientes de incesto, situações absurdas, humor "mais que negro" e perversão limítrofe, podem ser consideradas pérolas da realidade humana e romances absurdamente "góticos" por exelência. E nem vou comentar nada sobre "120 dias em Sodoma"...vão ler pra ver se é bom!

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Vale a pena ler de novo X



Canto das Bacantes
Oh, Tebas!
Terreira!
Mama de Semele Coroa a tua cabeça de Hera!
Para sangrar, para brotar
A vinha verde
Os novos frutos.
Te fantasia!
Pra dançar nas Bacanais
Com ramos de pinheiros e palmares
Com pele de viadinho
Plumas e brilhos
Pega com fé A Vara Libertina
Que a Terra toda vai dançar!"

(Extraído do livro "As Bacantes", de Eurípides)

Vale a pena ler de novo IX




Prece

Perdoe-me senhor,
Perdão deus,
Pois sinto o gosto do Pecado.
Deliciosamente amargo como um trago,
Tão meus e sem pudor.

Sim, senhor
Cada pensamento meu é monstruoso
E não me envergonho disso
Oh! Me responde, posso eu ter perdido o juízo?
A ponto de me tornar jocoso, pernicioso e iludido?

Não, senhor
Não me digas que não posso,
Que não devo.
Essa tal maldade não advém do meu ócio,
Nem é porque dancei um dia frevo.
Mas é porque senhor,
Pra falar a verdade, nunca senti medo.

Talvez, senhor
Apenas por isso tu me odeies
Ou quem sabe por mais...
Perversão, furor e tesão,
Eu sei que detestas isso,
Não tão quanto me chafurdo nisso.
Mas é porque, senhor,
E sinceramente, não tenho desejo algum de sair disso

Certamente, senhor
O inferno me espera,
Pudera! Blasfemo que sou,
Incomensurável é o meu valor.
Podre pra ti, mas tão prazeroso,
Que não quero nada além, pra me deliciar,
Voluptosamente de mim mesmo,
Senhor.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Vale a pena ler de novo V



Para Laura...
O quarto silencioso, é o confessionário de suas desventuras. As janelas abertas, libertam a brisa úmida que percorre o local. Alguns quadros dispostos ao centro da parede que dá suporte à pesada cama de madeira revelam extremos, dualismos. Um boneco com feições tristes e aparência de palhaço sobre a cômoda que fica do lado esquerdo da cama cultiva um tom grave ao ambiente e é a única testemunha das coisas que acontecem no lugar. A luz da lua que invade o quarto não permite a entrada da mais pálida ilusão. Após três dias perdidos em si mesma, e em meio às memórias do que poderia ter sido, ela sabe que as últimas mudanças foram somente quimera, e que já não pode se esconder. Durante toda sua vida encontrou em seus sonhos a fluência de estranhas imagens através de pessoas que passavam muitas vezes despercebidas, onde conseguiu ouvir as vozes murmurantes mescladas ao pequeno refugo de lucidez que a guiou finalmente à compreensão de seu maior Mistério. A dor que a aflige durante esse momento de solidão se multiplica quando começa a ouvir, da janela do quarto, os sons das corujas, que pintam o destino de mais uma noite a ser percorrida em meio ao terror e a luxúria. Coberta pelos lençóis e envolvida por cetim, começa a sentir o peculiar Frio que se aproxima insidiosamente de seus pequenos pés. Algumas vezes ouve a voz dele no cantarolar lúgubre dos pássaros noturnos. Outras, apenas o cheiro dos troncos das árvores é suficiente para anunciar sua vinda. Sua repulsa pelo Frio é tão grande seu desejo por ele. O Frio... sente ele avançar por entre suas pernas, produzindo arrepios nas coxas, e a sensação de impotência começa a crescer em seu corpo, dando a ela a certeza de que não pode fugir. Projeta subitamente então seu quadril para cima, num arroubo de lascívia, e sobressaltada, balbucia gemidos de torpor. A cama treme, a madeira ferve em contato com o Frio produzindo um odor de óleo quente. Então, repentinamente, o Calor começa a emanar da cama. Ela não sente medo, apenas a Força esbarrando contra seus ossos, vigorosa e mordaz. Repentinamente se lança em queda livre no centro de um repentino furacão em chamas, aprisionada e sem esperança de que os Anjos possam salvá-la, pois por mais que tentasse fazer o que era certo, sempre viu em si a podridão. Sente o hálito úmido em seu pescoço, que a faz revirar os olhos e se entrega, acalentada por um estranho sentimento de prazer.

Teria dito "quem é você?", antes de desmaiar.

As Crônicas de Babel ou

“Da reunião das três tribos e do reaparecimento de Zetricon”

O inverno que passou assolou todos os povos das tribos desde a extensa planície de Malgaroth até a Cordilheira de Sithen. Colheitas foram arrasadas pelo frio. Os campos da planície, outrora de cor verde brilhante, se transformaram num tapete gélido e espelhado, refletindo a angústia dos povos atormentados pela falta de alimento. As Macieiras que ornamentam e protegem a periferia do Bosque de Nelmitri chegaram a se tornar apenas pálidos vultos da outrora grandiosidade que foram no verão anterior. Por quatro meses, as criaturas da floresta se recolheram em seus abrigos e a mortandade se espalhou por todas as terras conhecidas de Babel. O Oráculo de Mithmard, detentor do Mistério dos Quatro Ventos, predisse as Trevas oriundas do Caos e seus Tentáculos, e a Floresta Escura mergulhou em negror profundo e impenetrável à Luz durante todo o tempo determinado pelos seus altos sacerdotes. Por todos os lugares viu-se corpos mumificados de animais, de pessoas, congelados pelo frio avassalador que castigou toda a Floresta Escura e o Bosque ao seu redor. Entretanto, exatamente como havia sido previsto, a Luz rompeu as demandas do Caos, iniciando mais uma vez o Ciclo de bonança para todas as formas de vida, que saindo de seus esconderijos, puderam retomar suas vidas livres do Terror que se estabelecera imperioso durante todo o inverno. As tribos ancestrais, por fim começaram a se reunir ao redor do Círculo Mágico, para celebrar os bons ventos que trazem a primavera. Chegam de suas terras se agrupando ao redor do grande círculo de pedras, antigos monumentos construídos no fim da Era da Aurora dos Homens, residentes no ponto mais elevado da planície. Por três dias irão realizar os rituais que marcam o início do tempo da fartura. Pintados de amarelo em suas faces, braços e pernas, o povo da tribo de Vilcah, cantam desde o nascer do sol ao deus fálico Orath, agradecendo pela Luz redentora primaveril. São pequenos em estatura, com longos cabelos, escuros e lisos. Seus cabelos, virgens de corte, são símbolos de sua devoção ao deus que adoram. A tribo de Vilcah, estabelecida no sopé da montanha que dá visão às Grandes Torres, guarda o poder dos Guardiões da Montanha. É dito que em algum lugar dela pode se encontrar a entrada para o Outro Mundo. Estão se reunindo junto às outras duas tribos na planície. O povo de Tremares foram os últimos a chegar ao local, pois tiveram de enfrentar a aridez de uma jornada de dois dias e duas noites pelo Deserto de Sal. Maiores em estatura, ainda possuem resquícios físicos de seus ancestrais. Contam os antigos que Gorath, o deus do Tempo, desceu à terra transfigurando-se em forma de uma coruja armadeira de penas azuis, na noite mais escura do mês Fyr, e seqüestrou a filha de seis dias de nascimento de Narteg, o mítico rei dos Tremares da Era da Aurora dos Homens. Apaixonado pela criança, implorou a Salimor, o deus que controla a evolução dos corpos de todos os vivos, a dá-la um corpo de mulher. Salimor atendeu o pedido, porém o advertiu que seus dias seriam contados em anos e sua pele escureceria, transparecendo o negror de sua alma por ter sido levada contra a sua própria vontade. Transformada em mulher, foi chamada de Caretolyf, que na língua inominável dos Guardiões significa “morro para sempre”. Apaixonada por ter visto Gorath ainda sob a forma de coruja, chorou lágrimas prateadas, que caíram na terra, sendo esta a primeira chuva que se tem notícia. Então pediu: “dá-me um filho, meu Senhor, pois daqui a vinte e oito dias perecerei, sendo minha carne já velha em anos.” Ele a amou mais que seus Pais imortais, e a fecundou, gerando uma criança, que foi arrancada de seu ventre pouco antes da morte de sua amada. Gorath, então, levou a criança a Narteg dizendo: “guarda-a em vestes azuis até que ela envelheça e morra, em memória de meu amor por tua filha. Será o meu Sinal entre mim e teu povo”. A criança cresceu com a pele escura de sua mãe, e morreu aos vinte e oito anos. Por isso o povo de Tamares pinta-se de azul a cada ritual das três tribos, e todos a partir desse evento têm a pele escura, sendo este o Sinal da Tristeza de Caretolyf. O calor da primavera, cálido e refrescante, trás também a tribo de Nuth. Montados em elefantes gigantescos, parecem minúsculas moscas pousadas nos cornos dos magníficos animais. O povo de Nuth conseguiu controlá-los através dos ensinamentos do primeiro deus das Feras, Zetricon, que pereceu na terrível batalha contra o Dragão-Cego, no fim da Era da Aurora dos Homens. Como tributo ao deus amigo, os Profetas do Caos de Nuth construíram as formações graníticas para ser santuário das celebrações pela lembrança de cada ciclo de vida e morte de Zetricon. Desde então, a cada inverno o deus morre em sua eterna batalha contra o espírito do Dragão-Cego, que se esconde no Outro Mundo, no período do verão. E a cada renascer de Zetricon, ele ganha outro nome de seus Pais imortais. Hoje, acreditam os povos das três tribos que Zetricon reaparecerá no meio deles para comunicar seu novo Nome e pedir a pureza de mais uma donzela. Se pintam de vermelho, para relembrar o sangue sagrado derramado do deus em sua eterna batalha contra seu inimigo imortal...